 Hoje acordei mais cedo que os domingos convencionais e resolvi fazer um chimarrão. Como vi que estava sem erva em casa, fui a padaria da esquina pra comprar um pacote da ilex paraguariensis e me deparei com um indigente quase de frente ao meu prédio, jogado ao chão sobre papelões velhos. Eu fui e voltei até a esquina pensando no que pode ter levado este homem a este destino. Confesso que fazia tempo que não via uma cena assim tão triste em um domingo de manhã, quase na frente de meu apartamento. Tomei alguns chimarrões com aquela imagem daquele pobre homem na cabeça e pensava: teria virado alcoólatra, ficara desempregado, a mulher largou dele? Que tragédia teria acontecido àquele homem? A explicação mais banal que existe e é reproduzida pelo nosso padrão cultural seria a de que aquele homem é um “vagabundo”. Tantas e tantas pessoas trabalham e ele caiu em erro na vida dele, e por isso esta ali, jogado a rua, possivelmente alcoólatra e sem família. Porém, como falei, essa é a explicação mais banal que existe, e que carrega junto consigo a ideologia da exclusão e o preconceito: se você não participar de determinado padrão, você esta errado, você é um “marginal”, ou seja, vive a margem daquela sociedade. Quem tem um pouco de conhecimento sobre a realidade econômica sabe que o desemprego é uma premissa básica do sistema capitalista, e que sempre veremos desempregados em maior ou menor numero (em 2010 estamos próximos dos 8% de desemprego no Brasil). Então, se por ventura você for alguém sem estrutura familiar ou psicológica pra agüentar um baque econômico, poderá vir a ser um futuro mendigo. Mas não estou aqui pra tentar derrubar o sistema capitalista nem fazer uma revolução. Estou escrevendo justamente sobre o titulo desse texto: Homens e cachorros. Vim no apartamento pra levar alguma coisa de comer para o pobre homem da calçada e na volta topei com uma vizinha e seu cachorro, todo limpinho, alisado e com aquelas roupinhas que agora usam em cães. Aquele era um cachorro muito mais bem tratado que o mendigo da rua. Faz muito tempo que eu penso isso: muitos cachorros (muitos mesmo) tem vida melhor que muita gente. E a que devemos isso? A resposta não sei; mas tenho algumas considerações. Nosso individualismo/egoísmo nos fez esquecer que somos parte de um grupo chamado “humanidade”. Não nos preocupamos com nossos semelhantes, preocupamo-nos sim em ter satisfação pessoal, em nos impormos. Queremos um cão, que vai nos ser fiel, não vai reclamar, no vai discordar. Queremos ter amigos que façam nossas vontades, não aqueles que discordam. Queremos ser superiores, não ajudamos outros, mas ajudamos um cachorro, um gato ou sei lá que animal. Cuidamos dos cães, não cuidamos da humanidade. Somos uma civilização cristã hipócrita. Aquela história de “ama o teu semelhante como a ti mesmo” parece ter ficado nos sermões religiosos ou nas pregações filosóficas do século XVIII. Criticamos políticos, falamos mal de nossos pais, ridicularizamos o diferente, mascaramos ao maximo nossos defeitos. Vivemos hipocritamente, egoisticamente e nos iludimos achando que somos boas pessoas, quando muitos de nos passam fome, ou até morrem de fome. Quando penso em coisas assim, me surge uma grande duvida: pra onde vai o mundo?
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